Emergências na Doença de Parkinson


Quando devo procurar o serviço de urgência e emergência?

Esta revisão descreve as principais condições emergenciais envolvidas na doença de Parkinson. Tais situações podem evoluir com piora rápida (horas a dias), sendo necessário reconhecê-las e procurar o serviço de pronto atendimento de referência. O rápido atendimento e manejo é de fundamental importância para prevenir morbidade ou mortalidade.


Síndrome de parkinsonismo-hiperpirexia

Essa é uma síndrome rara e potencialmente fatal relacionada à doença de Parkinson, relatada pela primeira vez em 1981 por Toru et al. Caracterizada por rigidez grave, febre, alteração da consciência e disautonomia(taquicardia e variações na pressão arterial).

Os principais causadores são redução ou retirada da terapia medicamentosa (levodopa ou amantadina), infecções e desidratação. Manifestações semelhantes podem ocorrer em indivíduos que realizaram a cirurgia para implante do DBS (deep brain stimulation), em intercorrências que levam à parada abruptada estimulação cerebral profunda.

Trata-se de uma emergência na doença de Parkinson, e o atraso na busca por atendimento médico pode levar a complicações potencialmente fatais, como embolia pulmonar, pneumonia por aspiração e insuficiência renal.

O tratamento é realizado em ambiente hospitalar intensivo, com medidas de suporte, hidratação, e uso de medicamentos para reverter o quadro. Reiniciar o uso dos medicamentos antiparkinsonianos é de fundamental importância, caso a retirada tenha sido a causa da síndrome.


Síndrome de discinesia-hiperpirexia

Síndrome descrita mais recentemente, que se manifesta com discinesias (movimentos involuntários hipercinéticos) graves, que levam os músculos à exaustão, causando febre, desidratação e confusão mental. A movimentação hipercinética difere da marcada lentidão dos movimentos vista na síndrome de parkinsonismo-hiperpirexia. Acredita-se que seja causada pela estimulação medicamentosa dopaminérgica excessiva, não fisiológica, que ocorre devido ao uso do levodopa por vários anos.

Ao contrário da síndrome de parkinsonismo-hiperpirexia, o tratamento envolve a redução gradativa da dosagem dos medicamentos dopaminérgicos, sobretudo do levodopa, além de medidas de suporte e hidratação em ambiente hospitalar.


Flutuações motoras graves

As flutuações motoras são complicações relacionadas ao tratamento com levodopa, mais prevalentes na doença de Parkisnon avançada. Ocorrem devido às variações entre os períodos de melhora dos sintomas motores após o uso da medicação (“on“), e os períodos de ressurgimento dos sintomas motores parkinsonianos (“off”). Alguns casos manifestam períodos de “off” extremamente incapacitantes, marcados por intensa rigidez e lentidão dos movimentos, disautonomia (taquicardia e variações na pressão arterial) e sintomas psiquiátricos, como crise de ansiedade e pânico.

Quando os sintomas são graves o suficiente para incapacitar o indivíduo é necessário atendimento no serviço de urgência médica. Muitos fatores clínicos podem precipitar o quadro e devem ser investigados, como infecções, alterações em doses dos medicamentos dopaminérgicos e uso de medicamentos bloqueadores dopaminérgicos (haloperidol, risperidona, metoclopramida).

O tratamento envolve a correção da causa, e adição ou mudança nas doses dos medicamentos antiparkinsonianos.


Psicose na doença de Parkinson

Psicose na doença de Parkinson é uma causa comum de internação e, ainda nos tempos atuais, um motivo comum de institucionalização em lar para idosos. Manifesta-se com confusão mental, agitação, alucinações visuais e auditivas, que quando se tornam graves, requerem hospitalização.

Pode ser precipitada por mudança nos medicamentos, infecções, desidratação e distúrbios metabólicos.

O tratamento requer investigação e correção dos distúrbios causadores, e, retirada ou mudança nas doses dos medicamentos possivelmente envolvidos. Muitas vezes é necessário a adição de medicamentos antipsicóticos (preferencialmente clozapina, ou quetiapina) para melhor controle dos sintomas.

Se esses sinais e sintomas estiverem presentes no indivíduo com doença de Parkinson, não hesite em procurar o serviço de Pronto Atendimento de referência para suporte e intervenção médica imediata.


Dr. Filipe Milagres Neurologista especializado em Distúrbios do Movimento pela USP-RP Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia CRMMG 57153 / RQE 42850 filipeneuro@usp.br

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